FUTEBOL URUGUAYO:

'' É uma religião nacional. A única que não tem ateu. Somos poucos: 3,5 milhões de uruguayos. É menos gente do que um bairro de São Paulo. É um país minúsculo. Mas todos futebolizados. Temos um dever de gratidão com o futebol. O Uruguay foi colocado no mapa mundial a partir do bicampeonato olímpico de 1924 e 1928, pelo futebol. Ninguém nos conhecia.

O futebol uruguayo é o melhor? Não. No mundo guiado pelas leis do lucro, onde o melhor é quem ganha mais, eu quero ser o pior. Não poderíamos sequer cometer o desagradável pecado da arrogância. Seria ridículo para um país pequeno como o nosso. Não somos importantes, o que é bom. Neste mundo de compra e venda, se você é muito importante vira mercadoria. Está bom assim.

Como explicar Uruguay?.... Somos um pouco inexplicáveis. Aí é que está a graça".

EDUARDO GALEANO - Escritor

O.VARELA


OBDULIO VARELA


A pele mulata lhe deu o apelido de Negro. A ascendência sobre os companheiros, seja de Peñarol, seja de seleção uruguaia, o fizeram Jefe. E o futebol praticado em campo, com uma garra exuberante, força, vontade e amor à camisa, o transformaram num mito. O meio campista uruguaio Obdulio Jacinto Nunes Varela fez história como um dos maiores craques do futebol mundial nas décadas de 40 e 50, sendo o principal responsável pela façanha celeste na Copa do Mundo de 1950, quando encheu de brio seus companheiros e foi o líder do Maracanazo, como ficou conhecida a vitória de virada por 2 a 1 do Uruguai sobre o Brasil, em pleno Maracanã, na final daquele mundial. Além de ser mítico com a camisa da seleção, Varela foi referência e ídolo com o manto aurinegro do Peñarol, levantando seis campeonatos nacionais. É hora de relembrar a carreira desse gigante (e temperamental) uruguaio.

Varela demonstrava desde pequeno uma maturidade impressionante. Com oito anos, vendia jornais na capital Montevidéu, e dizia que as únicas coisas verdadeiras nos periódicos eram o valor e a data. De infância humilde e com pouco estudo, Varela viu no futebol a chance de brilhar e ter um futuro melhor. O jovem começou no pequeno Deportivo Juventud, em 1936, até se transferir para o Montevideo Wanderers em 1938. Lá, mostrou seu temperamento forte e muito talento no meio de campo, precisão nos desarmes, na marcação e até nas subidas ao ataque. Suas atuações com a camisa do Wanderers o levaram, já em 1939, à seleção uruguaia, onde disputou os Campeonatos Sul-Americanos de 1939 e 1941, ficando com os vice-campeonatos em ambos.
Em 1942, conquistou seu primeiro título na carreira, o Sul-Americano, quando o Uruguai levantou a taça em casa. Sua atuação despertou o interesse do gigante Peñarol, que levou o imponente jogador para as bandas carboneras. Ali, começaria o ápice do craque.
A liderança e classe de Varela em campo rapidamente o levaram ao posto de capitão do Peñarol, onde fez história. Naquela década de 40, foram três campeonatos nacionais, em 1944, 1945 e 1949 – este último invicto. Capitão tanto no clube quanto na seleção, Varela só sentia um pesar pelo fato de não ser disputada naqueles anos a Copa do Mundo, por conta da II Guerra Mundial. Mas, em 1950, tudo começaria a mudar.
Depois da II Guerra Mundial, a Copa do Mundo, enfim, voltaria à cena em 1950, no Brasil. A seleção dona da casa, com vários craques do Vasco, era a grande favorita ao caneco, principalmente, claro, por jogar em casa e ainda pelas lembranças da boa campanha protagonizada na Copa de 1938, quando alcançou as semifinais, perdendo apenas para a futura campeã, Itália. Falando em Itália, a Azzurra é que seria favorita não fosse o desastre aéreo que matou todo o time do Torino, em 1949, que era a base da seleção. Sem Mazzola e companhia, os europeus foram presas fáceis na Copa e não brilharam. Pelo lado sul-americano, a Argentina não participou do Mundial por “biquinho”, pura inveja pelo fato de ser o Brasil a sede. Das forças do continente, o destaque seria o Uruguai, de volta a uma Copa desde 1930, sua primeira e única participação. Mas os celestes estavam na pior. A equipe não tinha confiança alguma e a imprensa do país achava até que a seleção não deveria participar do mundial. Os jogadores estavam sem ritmo, o país ficou meses sem técnico e os jogos pré-Copa foram sofríveis, com derrotas, empates e pouquíssimas vitórias. A seleção enfrentou, inclusive, o Brasil, com duas derrotas e uma vitória, por 4 a 3, no Pacaembu. Nem mesmo essa vitória serviu para animar imprensa e torcida locais. Os jogadores teriam que provar, em campo, que podiam fazer bonito. Para pôr ordem na casa, a comissão técnica uruguaia queria tirar da cabeça de Varela a recusa inicial em participar da Copa, pois o jogador se achava velho à época, com 32 anos. O volante só aceitou disputar o Mundial depois que Luis Carlos Castagnola, seu amigo dos tempos de Wanderers, o convenceu.
 O sistema da Copa de 1950, como de praxe, era bem confuso. Seriam quatro grupos, dois com quatro equipes, um com três e um com apenas duas (justamente o do Uruguai). Os melhores de cada grupo disputariam um quadrangular final, onde o primeiro colocado ficaria com o título. A Celeste enfrentou a fraquíssima Bolívia, no estádio Independência, em Belo Horizonte, com apenas 6.200 pessoas. Sem dó, o time massacrou: 8 a 0, gols de Míguez (2), Vidal (2), Schiaffino (2), Julio Perez e Ghiggia. Pronto, a equipe estava classificada para a segunda fase, fácil, fácil.
No quadrangular final, o Uruguai encarou a Espanha no primeiro jogo, no Pacaembu com mais de 54 mil pessoas (!). A partida foi intensa e muito disputada, com muita pegada e força física. O Uruguai abriu o placar aos 29´do primeiro tempo, com Ghiggia chutando no canto esquerdo do goleiro espanhol. Mas a Espanha virou o jogo em apenas sete minutos, com dois gols de Basora. Na segunda etapa, o capitão Varela, vendo que o ataque não conseguia furar a retranca espanhola, se adiantou, conseguiu receber uma bola perto da intermediária adversária, driblou dois e chutou forte, sem chances para o goleiro: 2 a 2. Na garra, e até na técnica, a equipe conseguia um ponto importante.
Na partida seguinte, outro duelo difícil, contra a Suécia, de novo no Pacaembu, dessa vez bem vazio, com apenas 8 mil pessoas. A Suécia abriu o placar logo no começo do jogo com Palmér, mas Ghiggia empatou aos 39´. Um minuto depois, Sundqvist deixou os suecos novamente em vantagem. Na segunda etapa, a Suécia tinha o controle da partida e parecia que venceria mesmo o jogo, mas após os 25 minutos, os meias e atacantes começaram a recuar, por cansaço, e fizeram exatamente o que o Uruguai queria. Pobres europeus, que não se atentaram à cartilha uruguaia do “jamais se entregue em campo”… Os sul-americanos foram todos para frente e Míguez empatou, aos 32´, e virou, aos 39´do segundo tempo: Uruguai 3×2 Suécia. O esquadrão Celeste estava mais do que vivo no Mundial. E só dependia dele mesmo para ficar com a taça na partida decisiva contra o Brasil, que havia vencido Suécia, por 7 a 1, e Espanha, por 6 a 1. Com a vitória da Suécia sobre a Espanha por 3 a 1, o grupo estava na seguinte ordem: Brasil, líder, com 4 pontos (as vitórias naquela época valiam dois pontos, e não três como hoje); Uruguai, segundo colocado, com 3; Suécia, 3º, com 2, e Espanha, última, com apenas 1. A partida final entre Brasil e Uruguai, marcada para o dia 16 de julho, seria decisiva. Um empate ou vitória do Brasil deixaria a Jules Rimet em solo nacional. O Uruguai, se quisesse ficar com o bicampeonato, teria que vencer o Brasil (um adversário, na teoria, superior) e toda a torcida contra.
Antes do jogo decisivo, o clima de já ganhou e a festa da torcida foram claros e explícitos no país. Todos tinham a certeza de que o Brasil sairia do Maracanã, construído especialmente para aquele Mundial, com a taça de campeão do mundo. Os jornais do dia do jogo davam até mesmo cartões postais da “Seleção Brasileira – Campeã Mundial”. Essa atmosfera toda de festa mexeu com os uruguaios, que usaram todos esses elementos para se inflarem antes do jogo. No vestiário, o grande personagem daquele mundial, o capitão Varela, mostrou toda sua autoridade ao ir contra a ideia do treinador Juan Lopez de jogar na defensiva. Diante de um adversário rápido e letal no ataque, com Ademir, Zizinho e Jair, Varela rechaçou que era preciso jogar com inteligência, muita marcação na principal jogada brasileira – a troca de passes no meio de campo – e não cometer erros no ataque. Já no túnel, o Negro Jefe deixou curtas palavras:
“Não pensem nessa gente, não olhem para cima.”
O Maracanã estava brilhante, límpido e maravilhoso naquela tarde ensolarada de 16 de julho de 1950. O público pagante daquele jogo foi de 172.772 pessoas, mas, como muitas pessoas entraram sem pagar, permanece a lenda de que 200 mil pessoas se amontoaram no maior estádio do planeta para presenciar a primeira conquista mundial do Brasil. A seleção estava completa, com as estrelas que não encontraram rivais durante a campanha: Barbosa, Augusto, Juvenal, Bauer, Danilo, Bigode, Friaça, Zizinho, Ademir, Jair e Chico. Era um esquadrão entrosado, ágil e letal no ataque. O Uruguai tinha apenas uma baixa, Vidal, contundido, que deu lugar a Morán. A equipe tinha na sua linha de meio de campo e ataque as forças necessárias para fazer um jogo duro para o Brasil, com Gambetta, Andrade, Varela, Ghiggia, Julio Perez, Schiaffino, Míguez e Morán.
O jogo começou e o Brasil foi quem deu os primeiros chutes e as primeiras chegadas ao ataque, mas sem grandes sustos. Ao longo do primeiro tempo, a seleção deu 17 chutes a gol, contra apenas 5 do Uruguai, que estava frio como gelo e sem sentir a pressão. Uma mostra disso foi o número de faltas: cinco do Uruguai contra 12 do Brasil. A Celeste conseguia anular a jogada do meio de campo do Brasil, Zizinho, Ademir e Jair não conseguiam cumprir seus papéis e os uruguaios ganhavam sobrevida. Pelas pontas, Gambetta e Matias González anulavam Friaça e Chico. Esse “ferrolho” durou até o primeiro minuto do segundo tempo, quando, enfim, o Brasil abriu o placar. Ademir recebeu de Zizinho e tocou na medida para Friaça, pela direita, chutar rasteiro, sem chance para Máspoli: 1 a 0 Brasil. O barulho foi ensurdecedor e a alegria geral. Aquele resultado dava o caneco ao Brasil. Mas, naquele gol, começaria o pesadelo brasileiro. O capitão Varela, como forma de ganhar tempo e assustar a torcida, deixou o jogo mais de um minuto parado pedindo impedimento no lance. Aquele artifício foi confirmado pelo próprio craque, décadas depois, em entrevista à Revista Placar:
“Segurei a bola depois do gol do Friaça, alegando impedimento, chamei o juiz, o bandeirinha, pedi intérprete, fiz tudo isso só para acalmar aquela gritaria. Eu sabia que provocando o medo de verem o gol anulado aquilo se transformaria num túmulo. Tentei e deu certo.” – Obdulio Varela.
Depois do gol, ao invés de liquidar o adversário, o Brasil diminuiu o ritmo e só foi dar mais um chute a gol aos 11´. Com isso, o Uruguai cresceu e passou a usar sua jogada mais perigosa: os lançamentos pela direita, explorando a velocidade e talento de Ghiggia. O Uruguai chegou ao empate aos 21´, quando Varela passou para Ghiggia na intermediária, perto da lateral. Ghiggia escapou de Bigode, correu, correu e tocou rasteiro para Schiaffino, que chutou alto, sem chances para Barbosa. A torcida emudeceu, mas continuou a incentivar a seleção. Mas aquele gol mostrou ao time Celeste o caminho para a consagração. E ela chegou aos 34´.

Aos 34 minutos da segunda etapa, Julio Perez passou pela marcação brasileira e tocou para Ghiggia, sempre pela direita. Ele devolveu ao companheiro e partiu em velocidade, para receber nas costas de seu marcador, Bigode. O goleiro brasileiro Barbosa pressentiu que a jogada do primeiro gol poderia se repetir e se afastou da trave esquerda. Um erro fatal. Livre de marcação, pois Juvenal estava indo em direção a Schiaffino, Ghiggia correu e, ao invés de cruzar como no primeiro gol, chutou forte, rasteiro, exatamente no canto onde Barbosa deveria estar: Uruguai 2×1 Brasil. Faltando apenas 11 minutos para o fim do jogo, o time Celeste conseguia o que muitos acreditavam ser impossível. O Maracanã, agora sim, era tomado por um “silêncio de morte”, como muitos lembram até hoje. O Brasil não teve forças para empatar o jogo e, aos 45´, o juiz inglês George Reader cumpriu a pontualidade britânica e apitou o final do jogo, sem esperar a conclusão de um lance de perigo a favor do Brasil. Era o fim. O Uruguai, 20 anos depois, conquistava a Copa do Mundo, se igualava à Itália e era bicampeão mundial. O Brasil, favorito, com o melhor ataque da competição e jogando em casa, ficava como vice. O Maracanã, que já estava silenciado, virava um poço de choro, lágrimas e tristeza. Os uruguaios não acreditavam no que viam, e se sentiam até mesmo sem jeito pela tragédia que haviam acabado de protagonizar.

O presidente da FIFA, Jules Rimet, que tinha preparado até um discurso próprio para o Brasil, nem cerimônia fez ao entregar a taça para Varela, de tão perplexo que ficou. Estava sacramentado o Maracanazo, como ficou conhecida a maior derrota da história do futebol brasileiro. E, sem dúvida alguma, a maior vitória da história do futebol uruguaio, eterna e que até hoje não foi vingada pelos brasileiros. Ghiggia, Schiaffino e Varela viravam, de vez, monstros sagrados do esporte uruguaio e mundial, além de fantasmas da seleção brasileira, no mesmo pedestal onde, anos depois, subiu o italiano Paolo Rossi, carrasco do Brasil na Copa de 1982. Nelson Rodrigues, mítico das crônicas e frases do Brasil, descreveu bem a participação de Varela naquele jogo:
“A humilhação de 50, jamais cicatrizada, ainda pinga sangue. Todo escrete tem sua fera. Naquela ocasião, a fera estava do outro lado e chamava-se Obdulio Varela.” 

Depois da Copa, Varela, bem como os jogadores do Uruguai, acharam que lucrariam vertiginosas quantias em dinheiro com o título mundial. Mas tudo ficou apenas no sonho. Com o dinheiro da conquista, o craque comprou apenas um Ford ano 1931, muito pouco para quem imaginava até comprar presentes para mulher e filhos. Outro fator de destaque foi o que Varela presenciou após a partida. O jogador andou pelas ruas de Copacabana ao término do jogo e viu de perto o drama que ele e seus companheiros haviam causado aos brasileiros, chegando até a consolar algumas pessoas, como ele descreveu:
“A tristeza de todos era tanta que terminei sentado em um bar bebendo com eles. Quando me reconheceram, pensei que iriam me matar. Felizmente foi tudo o contrário, me parabenizaram e ficamos bebendo juntos.” – Obdulio Varela, em depoimento ao site FIFA.com.
O jogador, mesmo desapontado com a falta de reconhecimento da AUF (Associação Uruguaia de Futebol) aos campeões, seguiu jogando em alto nível, conquistando mais três Campeonatos Uruguaios (1951, 1953 e 1954) e com o temperamento frio e difícil de sempre, a ponto de se recusar a vestir a camisa do Peñarol com um recente patrocinador, em 1954. O time foi a campo com 10 jogadores patrocinados e Varela com o velho manto aurinegro sem marca alguma. Veteraníssimo, aos 36 anos em 1954, o jogador foi mais uma vez para a disputa de uma Copa, na Suíça.
No Mundial de 1954, na Suíça, o Uruguai era um dos grandes favoritos ao título, juntamente com a incrível Hungria de Puskás e Cia. A Celeste tinha a base bicampeã mundial de 1950 e ainda outros talentos como Abbadie e Borges. Os sul-americanos não decepcionaram e deram show na primeira fase, com vitória por 2 a 0 sobre a Tchecoslováquia e 7 a 0 na Escócia. Nas quartas de final, duelo épico contra a Inglaterra e vitória por 4 a 2, com um dos gols uruguaios marcados por Varela. Porém, naquele jogo, o craque e líder da seleção sofreu uma lesão que o fez se arrastar por quase todo segundo tempo. Sem condições de jogo, o capitão foi uma ausência crucial para o duelo dificílimo contra a Hungria, nas semifinais. Sem Varela, a Celeste levou 2 a 0, mas conseguiu empatar com Hohberg no segundo tempo. Na prorrogação, as pernas pesaram pelo cansaço da difícil partida contra a Inglaterra, quatro dias antes, e a Hungria marcou mais dois gols, vencendo por 4 a 2. Abatida e novamente sem o capitão, a Celeste perdeu a disputa pelo terceiro lugar para a Áustria, que venceu por 3 a 1. Aquela foi a última Copa na carreira de Varela, que ostentou uma marca impressionante: em sete jogos disputados em Copas do Mundo com a camisa celeste, foram seis vitórias e um empate, o que manteve o craque invicto em Mundiais. Em 1955, Varela decidiu se aposentar de vez do futebol.
Depois de pendurar as chuteiras, em 1955, Varela tentou ser técnico de futebol, mas não suportou a interferência de diretores e desistiu da ideia. Com isso, foi para a área do funcionalismo público, vivendo uma vida sem luxo, muito aquém do que o mito uruguaio merecia. O líder do Maracanazo faleceu em 1996, aos 78 anos, na capital Montevidéu. Quando se foi, o governo uruguaio leiloou a camisa e as chuteiras que o craque usou na final de 1950, itens declarados “monumentos nacionais”. De poucas palavras, sério e um líder como pouco se viu na história do futebol, Obdulio Varela deixou sua marca para sempre como um herói, aquele que inflou 10 homens contra mais de 200 mil pessoas, mostrando que no futebol, muitas vezes, é preciso mais do que toque de bola e jogo bonito. Garra, coragem e coração são muito, mas muito bem vindos, como dizia Nelson Rodrigues, em muitas das crônicas que escrevia:
“Varela não atava as chuteiras com cordões, mas com as veias.”

Números de destaque:
Disputou 52 partidas e marcou 8 gols pela seleção do Uruguai.

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20/09/2017

Scarone escuchó el “¡Tuya Héctor!” y su zapatazo olímpico quedó registrado por siempre. Ghiggia se volvió inmortal con su corrida y su remate en Maracaná. Por otras latitudes, Maradona tocó el cielo cuando eludió a medio equipo inglés rumbo al título en México ’86. Y Pelé se hizo leyenda al marcar su milésimo gol. 

Todos los grandes tuvieron un instante dentro de la cancha que marcó un antes y después en su trayectoria y en la del fútbol. También lo tuvo Obdulio Varela, aunque la jugada de su vida él la hizo con la pelota bajo el brazo. No fue un gol, tampoco un pase decisivo, pero comenzó a ganar el último partido del Mundial de 1950 justo en el peor momento. 

Cómo se iba a asustar de 200 mil brasileños en las lejanas tribunas de Maracaná, si él había jugado en las bravas canchas de la Intermedia, donde las hinchadas iban bien provistas de piedras y armas para las frecuentes peleas. Una vez, en Maroñas, hizo un gol y cuando lo iba a festejar se encontró sentado en una silla, vestido de jugador: alguien lo había dormido de un golpe en la nunca y se despertó en el bar frente a la cancha. En esos duelos fue forjando su condición de líder. Ese que respalda a los suyos e inquieta a los ajenos. 

antes. Obdulio Jacinto Muiños Varela nació hace ahora un siglo, el 20 de septiembre de 1917 en La Teja, cuando el barrio era más lejano y modesto. La historia lo recuerda Obdulio, sin sus apellidos. La familia y los amigos le decían Jacinto. Y en el fútbol fue el Negro Jefe. 

Hijo natural criado por su madre, conoció la pobreza, pasó rápido por la escuela y se encontró vendiendo diarios a la edad de los juegos. Dicen que así se topó una vez con Batlle y Ordóñez y otra con Gardel, aunque por supuesto, ellos no supieron nunca quién era ese morochito atrevido que se metía en todos lados. 

Su juventud fue trabajo y fútbol. Empezó en cuadros de barrio: Fortaleza, Dublín, Pascual Somma, hasta que llegó al Deportivo Juventud, que jugaba en la Intermedia de la AUF. Una vez viajó a Buenos Aires con un combinado barrial. Tan pobre era que tuvieron que prestarle toda la ropa. En 1938 pasó a Wanderers y por fin se convirtió en futbolista profesional. 

Admiraba a Lorenzo Fernández, otro ejemplo de un desbordante temperamento con zapatos de fútbol. En realidad, formó parte de una generación que comenzó su carrera cuando terminaba la de los grandes campeones olímpicos, por lo cual heredó de primera mano el magnético carácter de hombres como José Nasazzi. 

La exaltación de Obdulio como capitán hizo pasar a un segundo plano las menciones a sus virtudes como futbolista. Que debieron ser muchas, pues menos de un año después de su debut en Wanderers ya estaba en la Selección, convocado para el Sudamericano de Lima 1939. Y ya no dejó la Celeste: disputó en total 50 partidos y convirtió 10 goles. Cuentan que era un centrehalf que cortaba juego y lo iniciaba por el lado más certero, con pases cortos o pelotazos justos para los punteros. Pese a su físico grande, más todavía en su época, era ágil e incansable. Cuando se acercaba al área rival, tenía un remate poderoso: está el testimonio de dos goles mundialistas de lejos, a España en 1950 y a Inglaterra en 1954. 

De cualquier manera, había nacido para ser capitán, lo fue siempre y en esa condición los equipos giraban alrededor de su personalidad. Sagaz, pícaro, sabía lo que iba a ocurrir en la cancha antes que sucediera. Por ejemplo, cuando el cordobés Juan Eduardo Hohberg iba a debutar en un clásico, le advirtió que su marcador Tejera lo iba a golpear al comienzo para probarlo. “Después, yo voy a dejar una pelota entre ambos y usted sabe qué tiene que hacer”, le dijo Obdulio. Así ocurrió. Tejera bajó de un codazo a Hohberg, quien al levantarse encontró a su capitán señalándole con el dedo: “¿Qué le dije?”. Al rato, mandó una pelota dividida entre los dos rivales y Hohberg supo qué hacer. 

A Peñarol llegó en 1943, a precio de gran figura. Sin embargo, demoró un tiempo en consagrarse con la aurinegra, sobre todo porque no se cuidaba: entonces nació su apodo infamante, Vinacho. Pero también fue un profesional tenaz. Así como volvió esa vez tras internarse por decisión propia dos meses en la Colonia Etchepare, supo mantenerse más tarde, concentrándose solo en Navidad y fin de año para evitarse los excesos ante una definición de campeonato. 

ese día. La huelga de futbolistas de 1948-1949 terminó de erigirlo en líder de toda una generación, aunque casi resultó el fin de la historia tal como la conocemos. Hubo dirigentes que pretendieron cobrarle esa condición de cabecilla de los jugadores y por poco no lo transfirieron a Boca o lo devolvieron a Wanderers. ¿Y si no hubiera ido a Maracaná? Después fue capitán de la Máquina aurinegra de 1949, última parada antes del Mundial de 1950, y defendió al club hasta su retiro. 

Ya en la Copa de Brasil ejerció su liderazgo para unificar al plantel, que dejaba de lado a Matías González por haber carnereado durante la huelga, o para concentrar a todos en el gran objetivo después que sus compañeros llegaron tarde de una noche de farra. Su gol salvó el empate ante España y su confianza alentó a los indecisos antes del partido con Brasil, cuando algún dirigente había adelantado que con recibir “solo” cuatro goles estaba cumplido. 

Y en Maracaná tuvo esa “jugada”. Friaça había convertido el gol que le daba el título a Brasil. Para su marcador, Víctor Rodríguez Andrade, había sido offside. Cuando sacaron la pelota de la red de Máspoli, Obdulio la puso bajo el brazo y se hizo dueño de todo lo que acontecía en la cancha, que era como decir todo lo que ocurría en el mundo. Ante el asombro general, inició una lenta ronda de protestas frente al línea y el árbitro. Los jueces eran británicos y no hablaban español, él no sabía inglés, era imposible que se anulara el gol, pero en esa queja muda enfrió el partido, frenó el ímpetu del equipo brasileño y acható el entusiasmo de la torcida. Cuentan las crónicas brasileñas que durante los últimos minutos del partido, en medio de un estadio en silencio, solo retumbaba su voz animando a sus compañeros al último esfuerzo. 

Recibió la Copa del Mundo de manos de un confundido presidente de la FIFA, Jules Rimet, que no había visto el gol de Ghiggia. Más que entregársela, Obdulio prácticamente se la arrebató, en la ceremonia de premiación menos solemne de la historia de los mundiales. De noche, fue a tomar copas por ahí y terminó confraternizando con los hinchas brasileños que lloraban la derrota. Mientras, en el país comenzaba a armarse la fiesta del siglo. Él, sin embargo, prefirió no festejar. Al regreso de la delegación pidió prestado un impermeable y un sombrero y salió sin que nadie lo reconociera. 

después. “Nunca, pero nunca logré entender qué era eso de la gloria, la leyenda, el mito, tantas cosas que se han dicho. Al revés, me molesta todo eso. No me interesa”, le dijo mucho después a Antonio Pippo, que lo escribió en su libro Obdulio. Desde el alma (1993). Confesó también que había regalado “más de cinco camisetas usadas en Maracaná”. Con el periodismo mantuvo una relación distante. Como jugador a veces no posaba con el equipo de Peñarol, enojado con la prensa que a su juicio se metía demasiado con su intimidad. Una vez vino un periodista brasileño para verlo. Lo tuvo varios días afuera de su casa, hasta que lo dejó pasar. Lo invitó a tomar algo pero nada de declaraciones. Ya retirado, en una famosa entrevista de Franklin Morales (“La gloria tan temida”) renegó de todo triunfalismo. 

Su leyenda se mezcla con la del invicto celeste en los mundiales. Jugó el Mundial de Suiza ya veterano y con algunos problemas físicos. Al convertir un gol ante Inglaterra, por los cuartos de final, festejó y se desgarró. No pudo estar en la semifinal ante Hungría y fue la primera derrota uruguaya en una Copa del Mundo. 

Curiosamente, jugó su último partido en el propio Maracaná. Fue en 1955 ante América de Río, cuando ya ejercía junto a Máspoli la dirección técnica de Peñarol. Notó que estaba lento y viejo y decidió largar. Había sido campeón uruguayo con la aurinegra en 1944, 1945, 1949, 1951, 1953 y 1954, campeón sudamericano (1942) y mundial con la celeste. 

Siempre receloso de técnicos y dirigentes, descreído de la fama, se alejó del fútbol (salvo su contribución con acciones benéficas como la Cruzada del Dr. Caritat, que incluyó una amistosa “revancha” de Maracaná) y se concentró en su trabajo en los casinos del Estado, que había obtenido antes del Mundial del ‘50. El ambiente cargado de humo de cigarrillo sin embargo afectó su asma. 

Su orgullo se vio varias veces golpeado por el olvido o la codicia ajena. Una vez no lo dejaron entrar al Estadio porque no tenía el carné de jugador. En otra ocasión se organizó una gran colecta para regalarle una casa. Pusieron de todos lados, pero cuando le entregaron el cheque, la suma era ínfima. 

Tenía un terreno en Villa Española, que le había dado un camionero amigo a cambio de un préstamo. Construyó con ayuda de su suegro y vivió allí desde 1964, donde lo iban a visitar cada cumpleaños suyo o de Maracaná. 
Con los años esa imagen reservada, casi hosca se fue suavizando. Siguió siendo terminante en las entrevistas, pero solía cerrar las frases guiñando un ojo y con una sonrisa. También llegaron los reconocimientos. Peñarol lo designó en 1991 “Jugador símbolo de la era profesional”. La FIFA le entregó la Orden del Mérito durante el Mundial 1994. 

Tras el fallecimiento de su esposa Cata, a principios de 1996, ya no abandonó su casa. Murió el 2 de agosto siguiente. Fue enterrado en el Cementerio del Cerro. En 1999 sus restos fueron trasladados al Panteón de los Olímpicos, en el Buceo. Un año después fue elegido “Deportista uruguayo del siglo” por el Comité Olímpico.

“El partido de Maracaná fue como cualquier otro”

“Parece que Obdulio tuvo un problema de salud y lo internaron. Andá a verlo”, fue la orden del jefe al joven cronista. Y allá fue, para encontrarse con la estatua viviente en una sala del Casmu. Sin embargo, no era de bronce, sino un anciano afable, simpático, que se puso a charlar con el muchacho. 

“No, no soy leyenda. Y si lo soy, deberían serlo también todos los que jugaron al fútbol. Simplemente tuve la suerte de pasar por el deporte y entrar en él. Así como usted entró al diario y con el tiempo terminará de ingresar totalmente a él”, comentó. 

El joven periodista le preguntó cómo le contaría lo de Maracaná a alguien que no lo vivió ni lo escuchó. Y Obdulio lo relató con sencillez: 
“El partido de Maracaná fue como cualquier otro. Bueno, quizás algo más importante, porque era una final. Por la responsabilidad son todos iguales, sea ante rivales chicos o grandes. Nosotros sabíamos que se podía ganar, porque conocíamos al rival, habíamos jugado un tiempo antes y sabíamos que se podía hacerlo. Además, si se cree que se va a perder, mejor no entrar. Quizás ellos se impresionaron con la fiesta. No sé. Lo que sí sé es que nosotros sabíamos que se podía ganar. No le digo que estábamos seguros de ganar, porque eso no puede anticiparse nunca...” 

Desarmado ante tanta simplicidad, el periodista quiso saber si Obdulio reconocía el cariño de la gente. 

“Sí, como no, siento el respeto -respondió-. Yo respeto a todo el mundo y por eso me respetan. Nada más. Y no represento a nada. Todo aquello del fútbol ya terminó”.