FUTEBOL URUGUAYO:

'' É uma religião nacional. A única que não tem ateu. Somos poucos: 3,5 milhões de uruguayos. É menos gente do que um bairro de São Paulo. É um país minúsculo. Mas todos futebolizados. Temos um dever de gratidão com o futebol. O Uruguay foi colocado no mapa mundial a partir do bicampeonato olímpico de 1924 e 1928, pelo futebol. Ninguém nos conhecia.

O futebol uruguayo é o melhor? Não. No mundo guiado pelas leis do lucro, onde o melhor é quem ganha mais, eu quero ser o pior. Não poderíamos sequer cometer o desagradável pecado da arrogância. Seria ridículo para um país pequeno como o nosso. Não somos importantes, o que é bom. Neste mundo de compra e venda, se você é muito importante vira mercadoria. Está bom assim.

Como explicar Uruguay?.... Somos um pouco inexplicáveis. Aí é que está a graça".

EDUARDO GALEANO - Escritor

E. FRANCESCOLI




Campeão da Copa América de 1983, 1987 e 1995. Enzo Francescoli só jogou uma época em Marselha, mas foi o suficiente para encantar um fã muito especial: Zinedine Zidane. Zizou viu em Francescoli o protótipo do futebol arte, o esteta que primava pela elegância. Zidane olhou para o uruguaio como o seu mentor, e tentou durante a sua carreira jogar à Enzo. Não foi à toa que anos mais tarde, era já Zizou um jogador consagrado, o seu primogénito recebeu o nome de Enzo Zidane. A verdade é que Enzo Francescoli Uriarte, «el Príncipe», nascido em Montevideu a 12 de Novembro de 1961, é um dos grandes incompreendidos do futebol mundial, muito particularmente no seu Uruguai natal, de onde saiu muito novo do pequeno Montevideu Wanderers para saltar para a outra margem do Rio da Prata e vestir a mítica camisola do River Plate, onde entre 1983 e 1986 apontou 68 golos em 113 partidas no campeonato argentino. Tornou-se um ídolo da massa adepta do River, encantando pelo seu futebol de filigrana e acutilante capacidade de concretização. A carreira na Europa O salto seguinte na carreira foi maior e teve como destino a «Cidade Luz», onde foi jogar no Matra Racing de Paris, que contava com craques como Luis Fernández, Maxime Bossis, Pierre Littbarski, David Ginola, Sonny Silooy ou o conterrâneo Rubén Paz. A primeira época foi um fracasso, com o Matra a lutar desesperadamente pela manutenção, mas no segundo ano, com a chegada do treinador português Artur Jorge que acabara de conduzir o FC Porto ao título de campeão europeu, o Matra andou a lutar pelos lugares cimeiros até perto do final, quando finalmente claudicou e caiu para um 7º lugar. Anos mais tarde, e não obstante recordar a desilusão de não se qualificar para as competições europeias nessa época, Francescoli considerou que Artur Jorge foi o melhor treinador que teve em toda a carreira. Entretanto o Matra rejeitou uma proposta da Juventus que queria o mago uruguaio para suprir a falta de Platini. De nada valeu o esforço italiano. O Matra manteve-se irredutível e não aceitou a transferência. No ano seguinte, após mais uma época de insucesso no clube parisiense, a direcção do Matra aceitou, finalmente, vender Francescoli ao campeão Olympique Marseille, de Bernard Tapie. Em Marselha ajudou os «ciels et blancs» a conquistar o segundo título, mas acabou por ficar só uma época no L'OM. Após o mundial de 1990, em Itália, as liras do Cagliari falaram mais alto e Francescoli mudou-se para a terra dos seus antepassados. Na Sardenha não foi muito feliz, acabando quase todas as épocas a lutar pela manutenção. Na terceira temporada, um brilhante sexto lugar, com direito a qualificação para a Taça UEFA, chamaram a atenção do Torino, que o contratou com o estatuto de grande estrela. Mas, mais uma vez, voltou a viver uma temporada agitada, com o Toro a lutar até ao final da temporada para se manter na Serie A. O regresso ao River Plate para a consagração Já com 33 anos disse adeus ao Bel Paese e voltou ao River Plate para ser campeão e melhor marcador da prova. Em 1996 chegou a consagração, ao conquistar a Taça Libertadores pela primeira vez na sua carreira. Francescoli é um dos melhores jogadores da história do futebol uruguaio. Prova disso, é que é o único jogador do seu país nomeado por Pelé para a lista da FIFA dos cem melhores jogadores do século XX. O percurso na selecção Comandou a celeste olímpica nos Mundiais de 1986, onde apesar de uma humilhante derrota por 1x6 contra a Dinamarca a selecção conseguiu chegar aos oitavos para perder com a Argentina, e de 1990, onde os uruguaios voltaram a cair nos oitavos-de-final, desta vez às mãos da Itália. Ao contrário dos Mundiais, Francescoli foi rei e senhor na Copa América, conquistando a competição por três ocasiões: 1983, 1987 e 1995. Apesar dos sucessos com a celeste olímpica, Enzo não convence os uruguaios. Não estranha, por isso, que tenha escolhido a Argentina e a capital Buenos Aires para viver, onde é reconhecido como um dos grandes jogadores de todos os tempos, cumprimentado na rua, inclusivamente, pelos adeptos do rival Boca Juniors.


Uruguaio nascido em Montevidéu, Enzo Francescoli jamais atuou em um grande clube de seu país. É ídolo, aliás, na Argentina, onde defendeu durante seis anos o River Plate. É, até hoje, considerado um dos maiores jogadores do tradicional time argentino. Por suas atuações, foi o primeiro estrangeiro a ser eleito o  melhor jogador do campeonato daquele país. Mas mesmo sem brilhar muito em clubes nacionais ou na própria seleção uruguaia, Enzo Francescoli é considerado um dos maiores jogadores de todos os tempos do Uruguai, sendo o único de seu país citado entre os 100 mais da FIFA e o 24º melhor jogador da América do Sul no século 20.
O reconhecimento do talento de Francescoli se torna ainda mais valioso pelo fato de o jogador ter surgido e feito fama em uma época em que o Uruguai não possuía um elenco de destaque. Mas a forma elegante e clássica de jogar lhe rendeu a alcunha de El Príncipe e um lugar na história do futebol. Torcedor do Peñarol, Francescoli foi o símbolo de uma seleção que venceu três edições da Copa América em apenas 12 anos e fez parte da equipe que se classificou para disputar as Copas de 1986 e 1990, das quais foi eliminada nas oitavas de final. Inclusive, Francescoli é considerado por muitos um craque solitário em uma época de decadência da seleção uruguaia. Ele esteve em duas Copas do Mundo, participou de apenas oito partidas e venceu apenas uma, contra inexpressiva Coreia do Norte.
Com um visão de jogo fora do comum, dribles fantásticos e de uma alta criatividade, o meia se tornou ídolo de muitos jogadores atuais. Zinedine Zidane é o mais emblemático deles. O francês se inspirou no modelo de jogo de Francescoli e chegou a utilizar a camisa do ídolo por baixo da sua em algumas partidas. A idolatria do ex-jogador francês chegou a ponto de batizar o filho com o nome do uruguaio: Enzo Francescoli Zidane. Em terras tupiniquins, o craque do Cruzeiro, Montillo, também se inspira no uruguaio para elaborar seu estilo de jogo, admirado por muitos. Tímido, de pouca fala e muito observador, Enzo Francescoli tornou-se um dos grandes ícones do futebol mundial.
Na Argentina, durante o período que envergou a camisa do tradicional River Plate, o uruguaio ganhou todos os títulos possíveis, sendo cinco campeonatos nacionais, uma Supercopa e uma Libertadores da América. Costuma-se dizer que, após a aposentadoria de Francescoli, o River Plate deixou de ser tão temido pelos adversários. Não poderia ser diferente, já que o jogador foi o estrangeiro que mais marcou gols pelo clube argentino e o responsável pela última conquista de uma Taça Libertadores pela equipe. Além disso, o uruguaio ainda defendeu clubes da França – onde também foi eleito o melhor jogador estrangeiro em atuação naquele país – e na Itália, conquistando a admiração dos europeus.
Desde o início de sua carreira, no modesto Wanderers, Enzo Francescoli já impunha respeito e mostrava a sua importância para a equipe. Naquela época, enquanto o garoto precisava cumprir com suas atividades escolares, o time preferia jogar o tempo que for preciso com apenas dez jogadores a colocar alguém para substituir o uruguaio. Durante toda a sua carreira foi assim. E na despedida não poderia ser de outra forma. Em 1999, na presença de 65 mil espectadores, dentre eles os atuais presidentes da Argentina, Carlos Menem, e do Uruguais, Julio Maria Sanguinetti, fizeram questão de prestigiar a partida. O carisma de Francescoli era tamanho que até mesmo torcedores do Boca Juniors, maior rival do River Plate, estiveram presentes.
Alguns dias antes da realização do amistoso de despedida, o compositor argentino Ignácio Copani dedicou ao craque a música “Inmenzo”, clara alusão ao nome do jogador. Até hoje, a canção é considerada uma das mais bonitas em homenagem a um jogador de futebol. Seus versos finais dizem o que muitos daqueles que tiveram o prazer de ver o uruguaio com a bola nos pés gostariam: “quiero verte una vez más querido Inmenzo, quiero verte una vez más, te lo suplico”. Gostaríamos de vê-lo uma vez mais, Enzo!