FUTEBOL URUGUAYO:

'' É uma religião nacional. A única que não tem ateu. Somos poucos: 3,5 milhões de uruguayos. É menos gente do que um bairro de São Paulo. É um país minúsculo. Mas todos futebolizados. Temos um dever de gratidão com o futebol. O Uruguay foi colocado no mapa mundial a partir do bicampeonato olímpico de 1924 e 1928, pelo futebol. Ninguém nos conhecia.

O futebol uruguayo é o melhor? Não. No mundo guiado pelas leis do lucro, onde o melhor é quem ganha mais, eu quero ser o pior. Não poderíamos sequer cometer o desagradável pecado da arrogância. Seria ridículo para um país pequeno como o nosso. Não somos importantes, o que é bom. Neste mundo de compra e venda, se você é muito importante vira mercadoria. Está bom assim.

Como explicar Uruguay?.... Somos um pouco inexplicáveis. Aí é que está a graça".

EDUARDO GALEANO - Escritor

quinta-feira

O VERDUGO: JUGADOR URUGUAYO PEDRO VIRGÍLIO ROCHA

Se existiu quem lembrasse um centauro alimentado a cenouras, a correr com força e elegância pelos gramados, como escreveu Nélson Rodrigues a respeito de tantos, esse foi o uruguaio Pedro Virgílio Rocha Franchetti. Nenhum outro pode ser comparado àquele que brilhou no Peñarol, na seleção de seu país e no São Paulo. Posso garantir que ver Pedro Rocha jogar despertava os melhores sentimentos de qualquer torcedor e este não saía de campo infeliz mesmo que seu time fosse derrotado pelos gols e lances de um craque excepcionalmente fantástico, se o considerado leitor me perdoa o entusiasmo. 

Durante a década de 60 e, principalmente, a partir de agosto de 1970, com a contratação de Pedro Rocha pelo São Paulo, eu costumava ir aos estádios para vê-lo jogar. Era, digamos, uma apaixonada admiração, creio que professada até mesmo por santistas, corinthianos e palmeirenses amantes do melhor futebol. A arte do craque influenciava pessoas, promovia amizades, aproximava os casais. Leia o trecho do belo e recém-lançado livro do jornalista/escritor Carmo Chagas, intitulado Meu Amor: 

(...) Foi num sábado à tarde, da redação do jornal, pois nenhum de nós, mineiros recém-chegados, tinha telefone em casa. 

– Léa? Sou eu, Carmo, o amigo da Helena. 

– Como vai, Carmo? Tudo bem? 

– Tudo bem. Escuta, como você está para esta noite? Vamos sair para um cinema, um teatro? 

– Hoje não, já tenho compromisso. 

– E amanhã? Como você está para amanhã à tarde? 

– Amanhã à tarde? Nada, acho que não tenho nada. 

– Quer ir comigo ver um jogo de futebol? No Pacaembu, Brasil contra Uruguai. O Pelé não vai jogar, mas o Tostão vai estar lá, no lugar dele. 

– Brasil e Uruguai? 

– É. Pelo Uruguai, o grande jogador é o Pedro Rocha. Você topa? 

– Topo. 

– Então passo aí pelas três da tarde, o jogo começa às quatro. Foi a primeira vez que a Léa esteve num estádio de futebol. (...) Para mim, era um belo programa. Muito natural, portanto, que convidasse a moça que, sem ela ainda saber, eu havia escolhido para casar. 

O jogo de 9 de junho de 1968 pela Copa Rio Branco, 2 x 0 para o Brasil, marcou também a despedida de Djalma Santos e a estreia oficial de Rivellino na Seleção. E ali, naquela tarde de domingo no Pacaembu, o São Paulo, que já sonhava com o craque desde o ano anterior, começou a planejar a vinda de Pedro Rocha, apelidado de El Verdugo, como outro algoz dos goleiros, o argentino naturalizado Juan Eduardo Hohberg, que jogou na Copa de 1954 pela seleção uruguaia. Mas Hohberg não jogava tanta bola quanto o herdeiro de seu apelido e isso ficou mais do que provado quando Rocha chegou para juntar-se a Gérson naquele time devastador. 

Do segundo semestre de 1970 a 1977, Rocha jogou no São Paulo tudo o que sabia, apesar de um início meio decepcionante, pois ainda se recuperava de uma contusão e a bola nem sempre lhe chegava na medida certa. Todavia, os repórteres mais íntimos do dia-a-dia tricolor diziam que aquilo era boicote, que Gérson fazia com o novo companheiro o mesmo que se viu no Real entre Alfredo Di Stefano e Didi. O técnico Oswaldo Brandão, que nunca foi propriamente um intelectual, mas era craque na psicologia do futebol, agiu com esperteza e encontrou espaço no time para acomodar os rivais: Gérson, tricampeão do mundo, e Pedro Rocha, que sofrera no México a maior frustração de sua vida, ao se machucar logo na estreia e ficar fora da Copa. 

(Até hoje há quem desconfie de que o jogão entre Brasil e Uruguai [3 x 1 para nós] teria sido muito diferente com El Verdugo em campo. Se Luis Cubilla, aquele baixinho gordo, infernizou sozinho a defesa brasileira, imaginem se tivesse o gênio ao lado dele.) 

Gérson e Rocha eram grandes demais para não se entenderem em campo; com eles o São Paulo acertou o passo, multiplicou os espetáculos e foi bicampeão paulista em 1971. Gérson saiu em 1972 para jogar no Fluminense e o companheiro, mais livre, deitou e rolou naquele ataque e foi outra vez campeão em 1975. Rocha justificava assim os 280 mil dólares pagos por seu passe. Convém recordar que o Peñarol tentou resistir, porém, naquela época, 280 mil dólares era dinheiro demais e o jeito foi contrariar a apaixonada torcida que protestava contra a saída do ídolo, sempre visto por todos, até por Pelé, como um dos maiores jogadores do mundo. Os uruguaios veneravam aquele que começou a jogar no Peñarol aos 17 anos, primeiro na ponta-esquerda, depois na ponta-direita, até a escalação definitiva com a camisa no 10. 

Alto, forte, veloz, passava e chutava com os dois pés, cobrava faltas com maestria e ainda cabeceava muito bem. Um craque completo que, algum tempo depois da chegada ao Morumbi, também aprendeu a marcar. Mas era no ataque que exibia o esplendor que encantava o mundo. O escritor e jornalista uruguaio Eduardo Galeano assim descreve uma jogada do seu ídolo: 

Foi em 1969. O Peñarol jogava contra o Estudiantes de La Plata. Rocha estava no centro do campo, de costas para a área adversária e com dois jogadores em cima, quando recebeu a bola de Matosas. Dominou-a com o pé direito, com a bola no pé se virou, enganchou-a por trás do outro pé e escapou da marcação de Echecopar e Taverna. 

Deu três passadas, deixou para Spencer e continuou correndo. Recebeu a devolução pelo alto, na meia-lua da área. Matou a bola no peito, soltou-se de Madero e de Spadaro e disparou de voleio. O goleiro, Flores, não viu nem nada. 

Pedro Rocha deslizava como cobra no pasto. Jogava com prazer, dava prazer: o prazer do jogo, o prazer do gol. Fazia o que queria com a bola, e ela acreditava totalmente nele. 

(Eduardo Galeano - Futebol ao sol e à sombra - L&PM Pocket - página 128.) 

Aos 19 anos, jogando mais ao sol do que à sombra, Rocha não chamou a atenção na Copa do Chile, em 1962, a primeira das quatro de que participou. A seleção uruguaia jogou na desértica cidade de Arica e lá estava Cubilla, não tão gordinho, e Sasia, festejado como o grande jogador do time, além de Perez, um bom ponta-esquerda. Mas o conjunto era fraco, e se começou razoavelmente ao vencer a Colômbia (2x1), perdeu as duas partidas seguintes, contra Iugoslávia (3x1) e União Soviética (2x1). Rocha nem participou desta última. 

Porém, aquele fracasso nada representou para o craque, pois, quando chegou ao Chile, já colecionava títulos importantes no Peñarol, campeão uruguaio de 1960, 61 e 62; tinha sido vencedor da Taça Libertadores da América em 1960 e, em 1961, do Mundial de Clubes, numa sensacional decisão com o Benfica de Eusébio e Coluna, dirigido pelo húngaro Bela Guttmann, aquele que fora campeão paulista com o São Paulo em 1957. No primeiro jogo, em Lisboa, no Estádio da Luz, o Peñarol perdeu por 1x0; na revanche em Montevidéu, goleou por 5x0 e no desempate, em 19 de setembro de 1961, ainda no Estádio Centenário, ganhou novamente: 2x1. 

Está certo que Pedro Rocha não participou das partidas decisivas, porque o técnico (argentino) Roberto Scarone achava o craque muito criança para tanta responsabilidade. O Peñarol podia exibir tal luxo, pois dava espetáculo em cima de espetáculo, com Gonçalves, Cubilla, Ledesma, Sasia, o genial equatoriano Spencer e o igualmente maravilhoso Joya, ponta-esquerda peruano. 

A grande Copa de Rocha foi a de 1966, quando, aos 23 anos, formou com Gonçalves uma dupla de meio-campo que assustou a Inglaterra na partida de abertura em Wembley. Foi um 0x0 suado que deixou o Uruguai eufórico e o adversário preocupado pela incapacidade de vencer a barreira dos zagueiros Ubiñas, Manicera, Caetano e Troche. Estes seguravam Bobby Charlton, Allan Ball e Hunt, enquanto Pedro Rocha comandava um ataque rápido e, principalmente, habilidoso, com Cortez, Viera, Hector Silva e Perez. Quando o juiz apitou o final, a torcida inglesa correu para encher a cara nos pubs próximos ao estádio. Não era para menos, pois o England Team escapou de um vexame histórico. 

Depois, Rocha fez um dos gols da vitória de 2x1 contra a França (o outro gol foi de Cortez) e, em seguida, o Uruguai ficou no 0x0 com o México. Foi glorioso empatar com os ingleses; mas com o México?!?! A única desculpa foi que o goleiro Carbajal pegou tudo naquela tarde de 19 de julho. O resultado bastou para a classificação do Uruguai, mas este acabou eliminado nas quartas-de-final pela Alemanha, cujo cabeça-de-área se revelou ao mundo como um dos maiores jogadores de todos os tempos - Beckenbauer. Apesar da boa equipe e de Pedro Rocha ter-se apresentado muito bem, a verdade é que os alemães tinham um time superior que só perderia a partida final contra a dona da casa, a campeã que não conseguiu vencer os uruguaios. 

Em 1966, Pedro Rocha seria campeão do mundo "apenas" de clubes, numa decisão contra o Real Madrid de Amancio Amaro e Gento: 2 x 0 em Montevidéu (gols de Spencer) e 2 x 0 no Santiago Bernabeu (gols de Rocha e Spencer). Aquele Peñarol comandado pelo técnico Máspoli - goleiro da Celeste na Copa de 1950 - era mesmo arrasador. 

No Mundial de 1970, Rocha se machucou logo na estreia vitoriosa (2x0) contra Israel e a partir daí a responsabilidade de infernizar os adversários ficou com o já citado gordinho Luis Cubilla, que fez aquele "gol espírita" no Brasil, na derrota por 3x1. O Uruguai sentiu muita falta d'El Verdugo, eis a verdade, e ele ainda se recuperava da contusão quando chegou para viver os sete anos de glória no São Paulo. E mais tempo jogaria, se o novo técnico Rubens Minelli não tivesse decidido que era hora de "rejuvenescer" a equipe. Aos 35 anos, o craque foi então emprestado ao Coritiba, e ali, só pra variar, ganhou o título de campeão paranaense de 1978. Antes de encerrar a carreira, passou ainda pelo Palmeiras e pelo Toros Neza, do México. 

Rocha poderia ter ficado no Morumbi, como auxiliar de Minelli ou responsável pelos juvenis, mas preferiu sair e treinar equipes menores "para aprender", conforme disse ao veteraníssimo Orlando Duarte na entrevista que o leitor pode ver em http://www.universotricolor.com/o-idolo-pedro-rocha-saiu-do-hospital/. O craque foi comandar o Mogi Mirim, depois a Portuguesa de Desportos e o Rio Branco de Americana (todos de São Paulo). Mas em nenhum desses conseguiu transmitir o muito que sabia. Como também não passou sua genialidade para o filho, Pedrinho Rocha, nascido em 1966 e que também vestiu a camisa do Peñarol e, à imitação do pai, resolveu experimentar o duríssimo ofício de treinador – igualmente sem grandes alegrias, registre-se. 

Há quase três anos o Centauro está doente. Vive em São Paulo, num sobrado em Santo Amaro, com a ex-mulher, Mabel, que voltou do Uruguai para cuidar dele. Recebe aposentadoria insuficiente para o tratamento de uma atrofia cerebral que lhe afeta os movimentos e a fala, mas – feliz ou infelizmente - não a compreensão e a memória. 

FONTE: FOOTBALL