FUTEBOL URUGUAYO:

'' É uma religião nacional. A única que não tem ateu. Somos poucos: 3,5 milhões de uruguayos. É menos gente do que um bairro de São Paulo. É um país minúsculo. Mas todos futebolizados. Temos um dever de gratidão com o futebol. O Uruguay foi colocado no mapa mundial a partir do bicampeonato olímpico de 1924 e 1928, pelo futebol. Ninguém nos conhecia.

O futebol uruguayo é o melhor? Não. No mundo guiado pelas leis do lucro, onde o melhor é quem ganha mais, eu quero ser o pior. Não poderíamos sequer cometer o desagradável pecado da arrogância. Seria ridículo para um país pequeno como o nosso. Não somos importantes, o que é bom. Neste mundo de compra e venda, se você é muito importante vira mercadoria. Está bom assim.

Como explicar Uruguay?.... Somos um pouco inexplicáveis. Aí é que está a graça".

EDUARDO GALEANO - Escritor

quinta-feira

JOGADOR URUGUAYO DIEGO FORLÁN


Pablo Forlan & Diego Forlan
Transcrevo a coluna"Diego e Alejandra" do jornalista de ZH Mário Marcos de Souza:

Sempre que alguém pergunta a Diego Forlán se por vezes o sucesso na carreira não sobe à cabeça, deixando-o com aquela sensação de se achar superior, que costuma perturbar alguns ídolos do esporte, o uruguaio eleito melhor jogador da Copa do Mundo da África reage com impaciência:
- Se você conhecesse minha irmã, não me perguntaria isso.
Alejandra, 36 anos, a irmã, é psicóloga, agente de jogadores, fundou e dirige em Montevidéu uma associação de apoio a vítimas do trânsito, como ela, e virou espécie de referência de coragem na família. É paraplégica desde os 17, quando sofreu um acidente, perdeu o noivo e nunca mais saiu da cadeira de rodas. Poderia desistir da vida, mas encarou sete meses de uma sofrida internação hospitalar e, a partir daí, virou a fortaleza emocional da família e, especialmente do irmão famoso.

A história de Alejandra é a parte mais comovente da biografia de Diego Forlán, resultado de longas conversas com o jornalista espanhol Enrique Ramón Pellicer (livro ainda sem edição em português).
É também uma espécie de chave para entender a própria personalidade deste atacante eleito melhor jogador da copa da África e elogiado por Pelé como o maior destaque do futebol mundial atual. Não haveria o atual Diego sem Alejandra - nem a família teria encontrado forças para resistir ao impacto do acidente se não fosse a coragem dela, desde o momento em que despertou na cama do hospital. Diego Forlán lembra bem.

Ele tinha apenas 12 anos quando foi acordado pelo irmão mais velhos, no meio da madrugada, avisando sobre o acidente daquela noite de setembro de 1991, quando o carro dirigido pelo noivo derrapou na pista.
Vestiu sua roupa e ainda sonolento acompanhou a família ao hospital. No primeiro momento em que entrou no quarto, percebeu um leve movimento nas pernas da irmã e deduziu que talvez a situação não fosse tão grave. Só depois foi saber que tinha visto apenas um espasmo muscular - a irmã nunca mais caminharia. Foi até a cama, abraçou Alejandra, e ela falou algo em seu ouvido. Diego não lembra dos detalhes, mas nunca esqueceu do principal da mensagem: a irmã repetia que queria muito a todos - era seu primeiro gesto de encorajamento.

Um ano depois do acidente , ao cumprir um período de recuperação em um hospital de São Paulo, Alejandra ouvia e aconselhava tanto os outros pacientes que era chamada de psicóloga. Estava decidido. Na volta ao Uruguai, entrou na faculdade. A mãe, Pilar, lia todos os textos. Forlán não tem dúvidas de que Alejandra mudou a sua história e a da família. Ele passou a dar mais importância para a vida, é embaixador da Unesco desde os 25 anos, participa de encontros com crianças carentes ou doentes, ajuda a irmã no trabalho da fundação. Basta prestar atenção nas atitudes e nas entrevistas de Diego Forlán, imunes a deslumbramentos mesmo diante de uma campanha como a da África, para se perceber o lado Alejandra de sua personalidade.

Até porque, como ele mesmo revela no livro, sempre que um dos integrantes da família tem um eventual desvio de conduta, pode se preparar. Sabe que vai levar uma reprimenda da vigilante e corajosa Alejandra - a irmã que mudou a vida do melhor jogador da Copa.